A CENTRALIZAÇÃO DO CAPITAL NO SETOR DE STREAMING: DO COMPLEXO TÉCNICO-FINANCEIRO ÀS CONTRADIÇÕES DO MERCADO BRASILEIRO

  • Autor
  • JEFFERSON VIEIRA DE GÓES
  • Co-autores
  • DEISE LUIZA DA SILVA FERRAZ
  • Resumo
  • Além de resultar de uma revolução na base tecnológica da indústria audiovisual, o setor de streaming evidencia a expansão de um complexo técnico-financeiro global (GÓES, 2024). Sob a aparência de uma “guerra do streaming”, o setor revela o aprofundamento da centralização do capital (MARX, 2017), exemplificado pela compra da Warner Bros. pela Netflix em 2025. Esta última, mesmo em mercados como Peru, Colômbia e Argentina, onde coexistem mais de 40 streamings (ANCINE, 2022), mantém-se na liderança, ameaçando as burguesias nacionais. 

    Dessa forma, objetiva-se investigar o setor de streaming brasileiro frente ao processo de centralização do capital. Metodologicamente, realizou-se (i) pesquisa exploratória sobre 32 plataformas nacionais (lançadas entre 2009 e 2023); e (ii) Revisão Sistemática da Literatura (RSL) na Revista Eptic (até junho de 2023) com descritores como streaming, audiovisual, automação e algoritmo. Foram selecionados 78 artigos (de 102 iniciais) para análise bibliométrica (R/Biblioshiny). 

    A análise revela que a Netflix, mediante o desenvolvimento das forças produtivas, materializado na gestão algorítmica (automação da curadoria e extração de dados), obtém lucros extraordinários, acelera a rotação do capital e consolida a oferta global de “vários catálogos em um”, mesmo com 12,6% de conteúdo brasileiro (ANCINE, 2022). Esse movimento subordina tanto os oligopólios de mídia quanto os streamings independentes. No Brasil, 91% das plataformas priorizam conteúdo nacional (GÓES, 2024), porém colidem com os modelos de negócio irreplicáveis dos gigantes globais. Tal disparidade decorre da menor massa de capital individual mobilizada e dos maiores custos, como a curadoria “humana”, restringindo a competitividade local frente às barreiras técnicas impostas pelo capital financeiro. 

    Em paralelo, a RSL indica que, embora a produção acadêmica tenha deslocado o foco do rádio e TV para a “economia de dados” (BAHIA et al., 2022), as contradições da indústria cultural brasileira continuam sendo reduzidas a uma mera disfunção regulatória (COSTA & SANTOS, 2021; IKEDA, 2022), deixando em segundo plano a intensificação da exploração do trabalho sob o domínio do capital.

    Essa tendência teórica ecoa na resistência da classe trabalhadora, que ao buscar a defesa da diversidade, a democratização do acesso e o enfrentamento à precarização, reivindica a regulação do setor e o fomento público (FÓRUM DE TIRADENTES, 2023). Porém, a política cultural brasileira, pautada pela instabilidade orçamentária e pela concentração regional de investimentos, acaba operando em benefício da expansão do capital financeiro global: (i) pelo fato de as grandes instituições financeiras serem as principais captadoras da renúncia fiscal (ITAÚ CULTURAL, 2020); (ii) pela transformação do fomento público em um mecanismo de fortalecimento de catálogos estrangeiros, ao incentivar projetos que comercializam seus conteúdos para distribuição em grandes plataformas; e (iii) pelo reforço da subordinação à base técnica, visto que o controle sobre o algoritmo e a distribuição determina, em última instância, o que será produzido. 

    Conclui-se que o setor de streaming brasileiro, diante da centralização do capital, empurra as iniciativas independentes à condição de assinatura complementar, restringindo-as a nichos específicos (como cinema negro e LGBTQIAP+). Nesse cenário, a reivindicação por regulação e fomento estatal revela-se paradoxal, pois reforça a subordinação que pretendia combater.

  • Palavras-chave
  • Streaming; Centralização do Capital; Gestão Algorítmica; Políticas Culturais
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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